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ED 013

O elogio britânico que na verdade reprova

Quite good vira elogio no inglês americano e nota média no britânico, e I'm afraid that's not quite right é recusa fechada, nunca dúvida.

Termômetro analógico com a agulha parada no meio da escala ao lado de uma xícara de chá fria.

O termômetro discreto do elogio britânico

 

Quinta-feira, 15h40. A apresentação da proposta acabou de terminar numa chamada com o time de Londres, e a primeira reação vem da gerente que decide o orçamento. Ela diz que o material está quite good e acrescenta que algumas partes not quite right. A chamada encerra em clima cordial, todo mundo agradece, e o brasileiro fecha o notebook com a sensação de que passou.

Duas semanas depois a proposta continua parada. Ninguém escreveu recusando, ninguém pediu ajuste, ninguém marcou nova conversa. O silêncio parece burocracia lenta e não é: a resposta já tinha sido dada em voz alta, com duas frases, na frente de sete pessoas.

O inglês britânico corporativo funciona com um termômetro deslocado. A escala de elogio começa mais abaixo do que a escala americana e termina bem antes, então a palavra que soa entusiasmada num ouvido treinado em séries dos Estados Unidos aterrissa como nota média num ouvido de Londres. Quem aprendeu inglês com filme americano e vai negociar com britânico está lendo um termômetro com a numeração trocada.

O custo desse deslocamento não é constrangimento social. É prazo perdido e proposta engavetada. O profissional que ouviu uma recusa e entendeu um elogio segue esperando resposta enquanto o outro lado já arquivou o assunto e passou para o fornecedor seguinte. Quando a ficha cai, o ciclo de decisão inteiro já rodou sem ele.

Duas construções concentram quase todo o estrago no dia a dia de trabalho, e as duas giram em torno da mesma palavra pequena. Uma delas parece elogio e é avaliação morna. A outra parece dúvida educada e é porta fechada com chave.

Vale destrinchar palavra por palavra o que cada uma carrega, porque a diferença não está no vocabulário difícil e sim num advérbio de cinco letras que muda de função conforme a frase.

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I  A EXPRESSÃO

O advérbio que sobe e desce na mesma frase

Quite tem duas funções opostas em inglês britânico, e a escolha entre elas depende do que vem depois. Diante de um adjetivo comum, quite enfraquece: quite good é razoavelmente bom, aceitável, mediano. Diante de um adjetivo absoluto, quite reforça: quite impossible é completamente impossível.

A regra prática cabe numa linha. Se o adjetivo admite graus, quite puxa para baixo. Se o adjetivo já é extremo por natureza, quite puxa para cima. Quite interesting é moderadamente interessante. Quite extraordinary é absolutamente extraordinário.

No inglês americano a primeira função quase desaparece. That's quite good na boca de um americano soa como bem bom, um elogio real. Na boca de um britânico, a mesma sequência de sons costuma significar que o trabalho está aceitável e nada além disso.

A escala real do elogio britânico

Vale decorar a ordem crescente, porque ela não é intuitiva. Not bad é bom. Quite good é ok. Very good é bom de verdade. Excellent é ótimo. Outstanding é raro e significa que a pessoa vai defender seu trabalho numa sala onde você não está.

Repare no ponto de partida. Not bad parece morno e é elogio sincero, porque a modéstia britânica evita o superlativo até quando ele é merecido. O mesmo movimento que rebaixa quite good eleva not bad, e as duas expressões acabam trocando de lugar em relação ao que o brasileiro espera.

Em inglês britânico, a intensidade da palavra não mede a intensidade da opinião.

A segunda frase, a que fecha a porta

I'm afraid that's not quite right. Receio que não esteja correto. O verbo to be afraid aqui não fala de medo: é o marcador padrão de má notícia, o equivalente funcional de infelizmente. Ele avisa que o que vem depois é negativo antes mesmo do conteúdo aparecer.

Not quite right parece deixar margem, e é aí que o brasileiro escorrega. Not quite não significa quase lá. Significa que a coisa não atinge o padrão, dita da forma mais suave que a língua permite. O britânico que diz not quite right está dizendo que está errado.

Junte as duas metades e você tem uma recusa completa, entregue com almofada. I'm afraid that's not quite right é o não formal do inglês britânico de escritório, e ele não pede revisão nem abre negociação. Pede que você reconheça o não e proponha outra coisa, ou que aceite o arquivamento.

A versão ainda mais dura usa o mesmo molde. I'm afraid that won't be possible. Receio que não seja possível. Quando I'm afraid aparece antes de won't, a decisão já foi tomada em outra sala e a chamada existe só para comunicar.

 
 

II  O ERRO DO BRASILEIRO

Ouvir margem onde não existe nenhuma

O deslize brasileiro tem uma raiz clara: no português do trabalho, atenuar significa suavizar sem mudar o veredito de aprovação. Quando dizemos que algo ficou bom mas precisa de um ajuste, aprovamos o conjunto e pedimos retoque. O britânico usa a mesma temperatura de voz para dizer que reprovou.

Por isso a frase it's not quite there yet é ouvida como incentivo. Ela parece dizer que falta pouco. Na prática, ela informa que o trabalho não chegou ao nível pedido, e o yet é cortesia gramatical, não promessa de proximidade.

O mesmo vale para I might suggest a different approach. Eu talvez sugerisse outro caminho. O might não é hesitação: é a forma educada de dizer que o caminho atual está descartado. Responder com uma defesa do caminho atual costuma soar como recusa a ouvir.

"A debilitating and painful chronic illness must be described as 'a bit of a nuisance'."

> > Kate Fox, em Watching the English, 2004.

Fox descrevia o hábito social britânico de rebaixar a intensidade de qualquer relato, e a régua atravessa a sala de reunião sem alteração. Se uma doença crônica vira um pequeno incômodo, um projeto malfeito vira algo que não está bem certo, e a gravidade real fica por conta de quem escuta.

As frases que parecem dúvida e são decisão

With the greatest respect. Com todo o respeito. O molde é idêntico ao português e o efeito também: o que vem depois discorda por inteiro. Em ambiente britânico, a frase costuma preceder a demolição do argumento anterior.

That's an interesting idea. Ideia interessante. Sem um verbo de compromisso na sequência, a frase registra que a ideia foi ouvida e não será usada. O sinal de que houve aprovação real é o próximo passo declarado, nunca o adjetivo escolhido.

I hear what you say. Eu ouço o que você diz. Esta é a mais traiçoeira, porque parece acolhimento. Ela marca que a fala foi registrada e que o assunto está encerrado do ponto de vista de quem falou.

Perhaps we could look at that again. Talvez pudéssemos olhar de novo. O perhaps somado ao could empilha duas camadas de distância, e a soma significa que a versão atual não passa.

Como confirmar sem parecer inseguro

Devolva a leitura em forma de pergunta objetiva. Just to make sure I understood: are you saying we should rework the proposal, or drop it? Só para confirmar: você está dizendo que devemos refazer a proposta ou abandoná-la. A pergunta obriga o outro lado a escolher entre duas saídas nomeadas.

Peça o próximo passo, nunca a opinião. What would you need from us to move this forward? O que vocês precisariam de nós para avançar. Se a resposta não trouxer ação, prazo ou pessoa, a decisão já é negativa e o silêncio das semanas seguintes fica explicado.

E registre por escrito no mesmo dia. Following up on our call: my understanding is that the current version doesn't meet the brief. Retomando nossa chamada: meu entendimento é que a versão atual não atende ao pedido. Escrever o não deixa o outro lado corrigir você se a leitura estiver errada, e britânico corrige por email com muito mais facilidade do que na chamada.

 
 

III  INGLÊS DE NOTÍCIA

O understatement na imprensa e no comunicado

Abra a cobertura britânica de negócios e o mesmo mecanismo aparece com outras roupas. Disappointing results é o rótulo padrão para prejuízo. Challenging conditions nomeia crise. A modest decline pode descrever uma queda de dois dígitos, e o adjetivo modesto está ali para segurar o pânico do mercado.

To underperform é render abaixo do esperado, e o verbo evita a palavra fracasso. Headwinds, ventos contrários, é a metáfora fixa para dificuldade de mercado. A challenging quarter é o trimestre ruim que o comunicado não quer chamar de ruim.

Restructuring é reestruturação, e em comunicado corporativo costuma anunciar corte de pessoal. Streamlining operations e rightsizing cumprem a mesma função com outra fachada. Quem lê o texto pelo valor literal das palavras perde a informação que o mercado já leu.

Os marcadores que antecipam má notícia

Regrettably e unfortunately abrem parágrafo de recusa formal em carta e email. Quando aparecem na primeira linha, o resto do texto é a justificativa da decisão negativa, não uma ponderação em aberto.

We note that é o marcador de discordância educada em documento oficial. We note that the figures differ from ours significa que os números do outro lado estão errados na visão de quem escreve.

It would appear that distancia quem fala do fato relatado. A construção sinaliza ceticismo: o autor está dizendo que a versão apresentada não convence, sem acusar ninguém de mentira.

Somewhat, rather e a little são os três atenuadores mais comuns do registro britânico. The delay is somewhat concerning é preocupação séria. Rather disappointing é decepção grande. A little tight on budget é orçamento insuficiente.

In due course é a resposta que adia sem prazo. We'll come back to you in due course significa que não há data e que insistir cedo demais pega mal. Quando você quiser data, peça número: could we agree on a date for the decision?

1. Releia hoje o último email de feedback que você recebeu em inglês britânico e sublinhe cada quite, rather, somewhat e not quite. Reescreva as frases sem atenuador para ver o que foi realmente dito.

2. Adote a pergunta de confirmação como hábito de fim de chamada. Uma linha pedindo escolha entre refazer e abandonar economiza duas semanas de espera por resposta que não vem.

3. Monte uma tabela de duas colunas com dez frases atenuadas de um lado e o significado direto do outro. Consultar a tabela antes de responder custa trinta segundos e evita comemorar uma reprovação.

"Quantas propostas suas ficaram paradas porque você leu um não britânico como se fosse um talvez?"

 
 
 
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No inglês britânico de escritório, o que I'm afraid that's not quite right comunica?

AUma dúvida educada, que pede mais detalhes
BUma recusa fechada, dita da forma mais suave possível
CUm elogio moderado ao trabalho apresentado
DUm pedido de adiamento da decisão

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

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