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ED 014

Soletrar o nome sem repetir três vezes

O alfabeto da ICAO, oficial desde 1956, resolve o nome soletrado ao telefone, e at sign no lugar de arroba destrava o email.

Headset de atendimento ao lado de um cartão com letras impressas em fileira.

O headset e o nome soletrado letra a letra

 

Quinta-feira, dez e vinte da manhã. Do outro lado da linha, uma atendente americana pede o seu sobrenome para abrir o cadastro. Você diz as letras uma a uma, no ritmo em que aprendeu na escola, e ouve de volta uma versão que não é a sua. Diz de novo, mais devagar. Vem outra versão errada. Na terceira tentativa, a atendente digita qualquer coisa e segue com o atendimento, e o seu nome fica gravado errado num sistema que você não controla.

O problema não é pronúncia. É que catorze letras do alfabeto inglês soam quase iguais ao telefone, e a linha come exatamente a faixa de frequência que separa uma da outra. B, C, D, E, G, P, T, V e Z formam um bloco que rima inteiro. M e N se confundem. F e S se confundem. Numa ligação com ruído de fundo, a chance de a letra chegar limpa cai a cada tentativa, e repetir mais alto não corrige nada, porque o volume não resolve ambiguidade.

Existe uma solução pronta para o problema, criada exatamente para linhas ruins, e ela é a mesma no mundo inteiro. Cada letra ganha uma palavra inteira, escolhida para não parecer com nenhuma outra palavra da lista, e você diz a palavra no lugar da letra. Quem escuta não precisa adivinhar som nenhum: pega a primeira letra da palavra e escreve.

A versão que vale hoje foi adotada em 1956, depois de anos de teste com falantes de vários idiomas, e ela reserva algumas grafias estranhas de propósito, como Alfa com f e Juliett com dois tês. As duas trocas existem para proteger quem lê a lista em francês ou espanhol e escreveria diferente.

O mesmo telefonema costuma cobrar um segundo pedágio logo depois do nome. Quando a atendente pede o email, o brasileiro solta duas palavras que não existem em inglês e a ligação trava de novo, agora sem que ninguém entenda o motivo. Vale montar a ferramenta na ordem: primeiro as vinte e seis palavras e a frase que as apresenta, depois o email inteiro, símbolo por símbolo.

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I  A EXPRESSÃO

As vinte e seis palavras que a linha não engole

O nome técnico da lista é the ICAO phonetic alphabet, e no dia a dia americano quase todo mundo chama de the NATO alphabet ou simplesmente the phonetic alphabet. Aviação, polícia, hospital e call center usam a mesma sequência, então ela funciona com qualquer interlocutor de língua inglesa.

Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo, Foxtrot, Golf, Hotel, India, Juliett, Kilo, Lima, Mike, November, Oscar, Papa, Quebec, Romeo, Sierra, Tango, Uniform, Victor, Whiskey, X-ray, Yankee, Zulu. Vinte e seis palavras, uma por letra, nenhuma parecida com a outra.

A frase que apresenta a letra tem duas formas e as duas são corretas. B as in Bravo. B de Bravo. B for Bravo. A primeira é a mais comum nos Estados Unidos, a segunda no Reino Unido, e ninguém corrige você por escolher a outra.

A ordem que funciona na ligação

Diga a letra primeiro e a palavra depois, sempre nessa ordem. S as in Sierra, I as in India, L as in Lima. Quem escuta já está com a caneta na mão esperando a letra, e a palavra chega como confirmação, não como enigma.

Se o nome for curto, soletre inteiro de uma vez. Se for longo, quebre em blocos de três ou quatro letras e faça uma pausa entre eles. A pausa é o que permite ao outro alcançar você sem pedir para repetir.

Soletrar não é falar mais alto, é trocar a letra por uma palavra que a linha não consegue destruir.

O que fazer quando a palavra some da cabeça

Ninguém decora a lista inteira na primeira semana, e não precisa. Qualquer substantivo comum com a inicial certa resolve: M as in Monday, R as in Robert, T as in Tuesday. Nomes de cidades grandes também servem, porque o interlocutor reconhece na hora.

Evite só duas armadilhas. Palavra com som inicial que não bate com a letra escrita atrapalha mais do que ajuda, então nada de H as in hour nem K as in knife. E nome próprio local pode não significar nada do outro lado: P as in Piauí não vai chegar.

Letra dobrada tem forma própria. Double L para dois eles, double S para dois esses. My name has a double N in the middle. O meu nome tem dois enes no meio. Sem esse aviso, o outro escreve uma letra só e você descobre o erro no email de confirmação.

O zero pede cuidado extra. Ao telefone, O e zero soam iguais, e a saída é dizer the number zero ou the letter O sempre que aparecer um dos dois num código, cadastro ou número de pedido.

 
 

II  O ERRO DO BRASILEIRO

Arroba e ponto com não existem em inglês

Arroba é uma palavra portuguesa. Em inglês, o símbolo do email se chama at sign, e na hora de ditar o endereço você diz simplesmente at. My email is marina at gmail dot com. Falar arroba numa ligação em inglês é entregar um ruído que o outro lado não tem onde encaixar.

O mesmo vale para o fim do endereço. Não existe point com nem ponto com: é dot com, com o mesmo dot para qualquer ponto dentro do endereço. maria.silva at empresa dot com dot br entrega o endereço inteiro sem uma pausa sequer para explicação.

Os separadores confundem porque em português eles têm apelido e em inglês têm nome oficial. Underscore é o traço baixo. Hyphen ou dash é o traço comum. Slash é a barra inclinada. Dot é o ponto. Quatro palavras cobrem noventa por cento dos endereços que você vai ditar na vida.

E existe uma quinta que economiza a ligação inteira. All one word. Tudo junto, sem espaço. It's marinasilva, all one word, at gmail dot com. Sem essa frase, o outro lado supõe um separador que você não disse e escreve um endereço que não existe.

"Omit needless words."

> William Strunk Jr., em The Elements of Style, 1918.

Strunk escrevia sobre prosa, e a régua se aplica inteira ao telefone. O endereço ditado com palavra a mais é o endereço que chega errado, porque cada explicação improvisada no meio do caminho vira uma letra que o outro tenta escrever.

O caso das maiúsculas

Uppercase é maiúscula e lowercase é minúscula, e a segunda é o padrão silencioso do email. Se todo o seu endereço é minúsculo, não diga nada: quem digita já assume minúsculo. Só avise quando houver exceção real, com capital R ou uppercase R antes da letra em questão.

Em senha ou código de acesso, a regra se inverte e vale declarar tudo. Lowercase a, capital B, the number seven, underscore. A ligação fica mais longa e o código entra certo na primeira tentativa.

A confirmação que fecha o assunto

Peça a leitura de volta em vez de perguntar se a pessoa entendeu. Can you read that back to me? Você pode ler de volta para mim. A pergunta transfere a checagem para quem escreveu, e o erro aparece antes de virar cadastro.

Quando é você quem anota, use a mesma cortesia ao contrário. Let me read that back to you. Deixa eu ler de volta para você. É a frase padrão de quem trabalha com atendimento em inglês, e ela soa profissional em qualquer contexto.

E se algo se perder no meio, existe uma linha limpa para pedir a repetição. Could you say that again, please? Pode repetir, por favor. Say again sozinho, sem o resto, é o padrão do rádio e também funciona no telefone comercial.

 
 

III  INGLÊS DE NOTÍCIA

O vocabulário de quem dita dado ao telefone

To spell é soletrar. How do you spell that? Como se escreve. Can you spell your last name for me? Pode soletrar o seu sobrenome. O verbo aparece em toda ligação de cadastro, e o pedido é de rotina, nunca sinal de que você falou mal.

Spelling é a grafia, e misspelling é o erro de grafia. There's a misspelling in my name on the invoice. Tem um erro de grafia no meu nome na fatura. É a frase que resolve documento errado sem acusar ninguém.

Typo é o erro de digitação, o deslize de dedo. Sorry, that was a typo cobre o email escrito errado numa mensagem. Misspelling aponta a palavra escrita errada; typo aponta a tecla apertada errada.

Os termos que vêm do rádio

Readback é a leitura de volta do que foi anotado, o procedimento que a aviação usa desde sempre para confirmar instrução. Em texto de imprensa sobre segurança de voo, readback error é a categoria de falha em que o piloto repete diferente do que a torre disse.

Callsign é o indicativo, o nome pelo que uma aeronave ou uma estação é chamada, sempre ditado no alfabeto fonético. A palavra saiu do rádio e virou gíria de empresa para o apelido interno de um time ou projeto.

Loud and clear é alto e claro, a resposta de quem está recebendo bem. Copy that é entendi, e roger é a versão mais antiga da mesma resposta. As três atravessaram o rádio militar e hoje aparecem em chamada de trabalho sem nenhuma cerimônia.

To break something down é destrinchar em partes menores. Let me break the email down for you anuncia que você vai ditar pedaço por pedaço, e prepara quem escuta para o ritmo mais lento que vem em seguida.

On the record e for the record aparecem muito em cobertura jornalística e valem no escritório. For the record, my last name has two Ns registra a correção de forma clara, para que a informação certa fique documentada na conversa.

1. Escreva o seu nome completo e o seu email já soletrados, palavra do alfabeto por palavra do alfabeto, numa nota fixa da tela. Ler é mais rápido que montar o alfabeto de cabeça com alguém esperando na linha.

2. Grave trinta segundos de áudio ditando o seu email em inglês e escute. Se você disse arroba, ponto com ou traço baixo, a próxima ligação vai travar no mesmo ponto.

3. Decore só as seis palavras das letras do seu nome. O resto da lista você aprende no uso, e seis palavras já cobrem a informação que você mais repete no trabalho.

"Quantas vezes o seu nome foi digitado errado num sistema porque faltaram seis palavras de um alfabeto criado em 1956?"

 
 
 
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