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Tell me about yourself em três frases, e I'm 32 na idade

Presente, passado e próximo passo organizam a resposta da entrevista, e I have 32 years copia o ter do português.

Notebook aberto numa chamada de vídeo sobre a mesa de trabalho.

Entrevista por vídeo com a recrutadora americana

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Da sala do apartamento em Curitiba, a analista de dados Renata Albuquerque respondeu à recrutadora Megan Cole, de uma empresa de logística de Austin: "I have 32 years and I work with data." A pergunta tinha sido a primeira da entrevista por vídeo: tell me about yourself, fale sobre você.

Megan sorriu, anotou algo no bloco e passou à pergunta seguinte. Renata atravessou os quarenta minutos restantes sem saber qual impressão tinha ficado no papel da recrutadora. A parte sobre Python, painéis de vendas e a migração de um sistema de estoque para a nuvem veio depois, e veio bem.

A primeira frase, porém, carregava dois problemas. O primeiro era gramatical: em inglês, idade se diz com o verbo to be (ser ou estar), e o correto seria I'm 32. O have (ter) veio direto do português "eu tenho 32 anos", e o ouvido americano estranha a construção como um brasileiro estranharia ouvir "eu sou 32 anos".

O segundo problema era de estratégia. A idade não responde à pergunta que a recrutadora faz quando pede tell me about yourself. Ela quer uma apresentação profissional curta, que sirva de mapa para a conversa inteira, e a idade ocupou o espaço mais valioso da resposta.

Nos Estados Unidos, o assunto tem peso extra. A Age Discrimination in Employment Act (Lei contra a Discriminação Etária no Emprego), de 1967, protege candidatos com 40 anos ou mais, e por causa dela muitos recrutadores evitam perguntar a idade e registrar a informação. Renata entregou de graça um dado que Megan preferia não anotar.

Na semana seguinte, Renata recebeu o convite para a segunda etapa e decidiu reescrever a abertura. Montou três frases: uma para o trabalho atual, uma para a trajetória e uma para o cargo que buscava. Ensaiou com o marido, gravou no celular e cronometrou: 28 segundos.

Seguem a estrutura de três tempos para responder à pergunta, o have emprestado do português que troca o ser pelo ter, e o vocabulário com que a imprensa americana escreve sobre contratação e idade.

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I  A EXPRESSÃO

Três frases, três tempos verbais

Tell me about yourself abre a maioria das entrevistas em inglês e soa como convite livre, mas tem formato esperado. A recrutadora quer ouvir quem o candidato é hoje no trabalho, como chegou lá e por que a vaga faz sentido agora. Cada parte usa um tempo verbal diferente, e a gramática organiza a resposta sozinha.

O presente: quem você é hoje

A primeira frase usa o simple present (presente simples, o tempo dos fatos habituais). I'm a data analyst at a retail company, and I build sales dashboards for twelve stores, sou analista de dados numa varejista e monto painéis de vendas para doze lojas. Cargo, setor e uma entrega concreta cabem numa linha.

O verbo work entra bem aqui: I work with pricing data, trabalho com dados de preço. O tropeço comum é o present continuous (presente contínuo, o tempo da ação em andamento), I'm working as an analyst, que sugere situação provisória, como quem está só de passagem pelo cargo.

O passado: como chegou até aqui

A segunda frase vai para o simple past (passado simples, o tempo das ações concluídas). Before that, I worked in logistics, where I automated the weekly inventory report, no emprego anterior, trabalhei em logística, onde automatizei o relatório semanal de estoque. Um feito com verbo de ação pesa mais que uma lista de cargos.

Os verbos de ação dão força à frase: led, liderei, built, construí, reduced, reduzi, launched, lancei. I reduced report time from two days to three hours, reduzi o tempo do relatório de dois dias para três horas, mostra resultado com medida, e a recrutadora anota a cifra.

O próximo passo: por que esta vaga

A terceira frase aponta para a frente com I'm looking for, estou buscando, ou I'd like to, gostaria de. Now I'm looking for a role where I can work with international teams and larger datasets, agora busco uma vaga em que possa trabalhar com times internacionais e bases de dados maiores. Aqui o presente contínuo acerta, porque a busca é temporária.

A resposta inteira fica entre 30 e 60 segundos. Presente, passado e próximo passo formam uma linha reta, e a última frase entrega a deixa para a pergunta seguinte da recrutadora: why us?, por que nós?

Fica de fora tudo que não serve ao cargo: idade, estado civil, cidade natal e passatempo sem ligação com a vaga. A resposta curta funciona como trailer de filme, mostra o suficiente para a recrutadora querer as próximas perguntas e deixa os detalhes para elas.

 
 

II  O ERRO DO BRASILEIRO

O have que empresta o ter do português

I have 32 years nasce da frase eu tenho 32 anos. O português conta a idade como posse, e o inglês a trata como estado: a pessoa é 32, assim como é alta ou é brasileira. Daí a forma certa usa to be: I'm 32.

Três versões funcionam. I'm 32, a mais comum na fala; I'm 32 years old, completa e neutra; e I'm thirty-two, com o número por extenso na escrita formal. A que não existe é I'm 32 years, sem o old: o inglês aceita cortar years old inteiro, nunca pela metade.

A pergunta segue a mesma lógica. How old are you?, literalmente quão velho você é?, usa are, e ninguém pergunta how many years do you have?. A resposta repete o verbo da pergunta: I'm 32.

Outros ters que viram ser

A idade puxa uma família inteira de frases em que o português usa ter e o inglês usa be. Tenho fome vira I'm hungry; tenho sede, I'm thirsty; tenho frio, I'm cold; tenho medo, I'm afraid; tenho razão, I'm right. Em todas, o inglês descreve o estado da pessoa com um adjetivo.

Quando o português diz ter para falar de um estado do corpo, da mente ou da vida, o inglês quase sempre troca por be seguido de adjetivo ou de número.

Numa entrevista, o par que mais aparece é tenho certeza, I'm sure, e tenho interesse, I'm interested. I have interest in this position soa travado; I'm interested in this position, tenho interesse nesta vaga, soa natural.

"You can make more friends in two months by becoming interested in other people than you can in two years by trying to get other people interested in you."

Dale Carnegie, How to Win Friends and Influence People, 1936.

Dale Carnegie, professor de oratória americano, escreveu a frase, que quer dizer você faz mais amigos em dois meses se interessando pelos outros do que em dois anos tentando fazer os outros se interessarem por você. A construção dele usa interested, interessado, como adjetivo, sempre com be ou become, tornar-se. Para a entrevista, a lição de Carnegie é dupla: mostrar interesse pela empresa conta mais que listar feitos, e a frase certa sai com o verbo ser.

Onde o have continua certo

O have segue firme quando há posse ou experiência concreta: I have a degree in statistics, tenho graduação em estatística; I have experience with SQL, tenho experiência com SQL; I have two kids, tenho dois filhos. A troca vale só para idade e estados, e o resto do currículo continua com have.

 

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III  INGLÊS DE NOTÍCIA

Job seekers, hiring freeze e a idade na manchete

A imprensa americana cobre o mercado de trabalho com vocabulário fixo. Job seekers são os candidatos a vaga, job openings são as vagas abertas e hiring freeze, congelamento de contratações, é quando a empresa para de contratar por um período. Layoffs são as demissões em massa, e headcount, o número de funcionários.

O Bureau of Labor Statistics (a agência federal de estatísticas do trabalho) publica todo mês o relatório de emprego, chamado de jobs report, e a manchete do dia costuma trazer o unemployment rate, a taxa de desemprego. Payrolls, as folhas de pagamento, medem quantas vagas foram criadas no mês.

A idade como adjetivo

Quando a idade aparece na reportagem, ela vira adjetivo composto com hífen: a 32-year-old analyst, uma analista de 32 anos. Repare no year sem s: dentro do adjetivo composto, o substantivo fica no singular, porque adjetivo em inglês não tem plural.

A outra forma de jornal é o aposto entre vírgulas: Renata Albuquerque, 32, a data analyst from Curitiba, Renata Albuquerque, 32 anos, analista de dados de Curitiba. O número solto logo depois do nome segue a convenção da agência Associated Press, registrada no manual de estilo dela, o AP Stylebook.

No texto de notícia, idade nunca aparece com have. A reportagem escreve the 32-year-old engineer ou the engineer, 32, e a fonte entrevistada diz I'm 32. O verbo ter fica fora das três versões.

As manchetes de contratação

A manchete corta artigos e verbos auxiliares, num estilo apelidado de headlinese (a gramática enxuta das manchetes): Tech firms slow hiring as rates stay high, empresas de tecnologia desaceleram contratações com juros altos. Older workers face longer job searches, trabalhadores mais velhos enfrentam buscas mais longas por emprego, é o tipo de título que surge quando o tema é idade.

Ageism, etarismo, é a palavra para o preconceito por idade, e age gap, a diferença de idade entre gerações num time. As duas voltam sempre que a imprensa discute a lei de 1967 e os candidatos com mais de 40.

Renata Albuquerque abriu a segunda entrevista com I'm a data analyst, I automated our logistics reports, and now I'm looking for a role with international teams. Megan Cole perguntou sobre a automação, e a conversa girou em torno do resultado. A idade não apareceu, e três semanas depois chegou a proposta.

"Qual das suas três frases de apresentação você já consegue dizer em inglês sem ler?"

Confira antes da próxima entrevista:

1. se a primeira frase diz cargo e entrega atual no presente simples

2. se a idade, quando aparecer, sai como I'm 32, sem have

3. se a última frase usa I'm looking for e nomeia o tipo de vaga

 
 
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